quarta-feira, 26 de maio de 2010

Trecho do livro "Confissões"

Eis aí um trecho do livro Confissões de Santo Agostinho que emocionou um bocado hoje:

"Esta alma , a quem livraste do visco tenaz da morte, une-se agora a ti. Como era infeliz! E tu fustigavas o mais dolorido da ferida, para que deixasse tudo, e se convertesse a ti, que estás acima de tudo. Sem ti nada existiria. Ferias minha alma para se voltasse para ti, e fosse curada.
Que miserável era eu então! E como agiste para que eu sentisse minha desgraça? Era o dia em que preparava para declamar os louvores do imperador; neles ia mentir muito e, mentindo granjearia a aprovação dos que sabiam das mentiras. Preocupado, meu coração se consumia com a febre de pensamentos impuros quando, ao passar por uma rua de Milão, vi um mendigo já bêbado, creio, mas bem humorado e divertido. Suspirei então, e falei aos amigos que me acompanhavam sobre as muitas dores que nos provocavam nossas loucuras. Com todos os esforços, quais eram os que então me afligiam, apenas arrastava a carga de minha infelicidade cada vez mais pesada, aguilhoado por meus apetites, para conseguir somente uma alegria tranquila, na qual já nos havia precedido aquele mendigo; alegria que nunca talvez alcançássemos. O que ele havia conseguido com umas poucas moedas de esmola, era exatamente o que eu aspirava com tão árduos caminhos e rodeios: a alegria de uma felicidade temporal.
A alegria do mendigo não era certamente verdadeira, mas a que eu buscava com minhas ambições era ainda mais falsa. Ele, pelo menos, estava alegre, e eu, angustiado; ele seguro, e eu inquieto. [...]
[...]
Isso me afligia e redobrava minha dor; se me sorria alguma ventura, não acudia para apanhá-la, porque escapava-me das mãos antes mesmo que a pudesse alcançar." (Agostinho, em 'Confissões', Livro Sexto, cap. V, Alegria de bêbado)

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